A Dança e o Caminho Sagrado

Somente a partir do coração é possível tocar o céu.” – Rumi

Por Larissa Isolani

O ‘Caminho Sagrado’ – o caminho do coração – é aquele que nos leva de volta a nós mesmos. Um redescobrimento da importância e beleza de cada um dos nossos ciclos, de cada símbolo que carregamos, dos infinitos Deuses e Deusas que manifestamos. Neste Caminho, aprendemos e ensinamos uns com os outros em comunhão com a Mãe Terra. Trata-se de um despertar para os universos, interno e externo, onde percebemos melhor nossos instintos e reavivamos nossa sabedoria ancestral; nosso infinito poder de amor e de cura.

Durante meu trajeto pessoal, percebi que existem muitas formas de encontrarmos essa conexão. Costumo dizer que há tantas ‘ferramentas’ quanto há pessoas no mundo; sendo assim, cada um de nós encontra a que melhor serve, de acordo com as nossas necessidades. Mas a Dança, sem duvida alguma, é uma das mais completas, por sua extrema capacidade de nos expandir, limpar, e alinhar de forma visceral.

O movimento é algo intrínseco mesmo aos seres ditos inanimados, já que tudo está em constante transformação. Mesmo uma pedra dança, quando é tocada pelas águas. Uma árvore dança, com os enleios do vento. Os animais dançam, nós dançamos, em cada passo, em cada olhar, em cada gesto, por mais sutil que seja.

Fui uma criança bastante ativa, e tive o privilégio de poder passar muito do meu tempo em meio a natureza, observando-a em suas manifestações. Bem cedo tive contato com a filosofia do Yoga através da minha mestra-madrinha com quem minha mãe praticou por muito tempo – inclusive durante a gestação; e logo nos anos primários também comecei a frequentar aulas de ballet clássico, num ginásio perto de casa. Era muito pequena ainda, e sentia alguma pressão, antes de vir a compreensão: Os movimentos tinham diretrizes, precisavam se desenvolver a partir de algo já forjado, o que pôde ensinar-me muito sobre postura, doação e disciplina.

Mais tarde, quando adentrei nos estudos de dança contemporânea, consegui sentir um tanto mais de liberdade quanto ao que queria expressar. Mas ainda buscava a fluidez genuína do corpo, simples e espontâneo, como as folhas nos redemoinhos em dias de tempestade, ou os pássaros alegres ao alvorecer.

Por muitas vezes, dancei sozinha no quarto, ouvindo antigos discos do Kitaro que tínhamos em casa, e a sensação de girar, rodopiar, permitir que o som guiasse, e segui-lo intuitivamente, foi um despertar e tanto para o que significava me permitir ser livre. Ainda estudei tecido acrobático nas aulas de circo, e dediquei-me ao teatro, onde as aulas de corpo, mais do que qualquer outra coisa, faziam-me imenso sentido.

E quando finalmente encontrei-me com as danças orientais, tribais e ciganas, ainda que também necessitem de posturas específicas, senti-me compreendida enquanto mulher, enquanto alma feminina. A sacralidade do Ventre sendo exaltada mostrou-me de forma única a força que existe em mim, assim como as fusões ímpares da dança tribal me despertam os sentidos, e a magia dos símbolos ciganos me remete ao que há de mais precioso na vida. Tudo isso fala com clareza sobre a necessidade do meu espírito, de ser traduzido conscientemente a partir do corpo em movimento.

Através da união dos saberes entre as técnicas aprendidas e os sentires do coração, as vivências pelo caminho do autoconhecimento, da Magia Natural, das Terapias Holísticas e do retorno a ancestralidade da própria Dança – o poder no Corpo, como cita a maravilhosa Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos – renasceu e se fortaleceu naturalmente, também a expressão sensorial e intuitiva, que destino hoje ao meu ofício.

A Dança como um Ritual, nos leva a estados de profunda comunhão com o cosmos, com o Sagrado existente em cada alma, em cada espírito. É um encontro com a própria essência: Guio-me pela minha essência, e a partir dela comungo com todos os que de alguma forma predispõe-se a experienciar algo verdadeiramente transformador.

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